Sexta-feira, Novembro 20, 2009
Quinta-feira, Novembro 19, 2009
London Diaries, Chapter II
Ao contrário do que me tinham prometido, Londres não é um deslumbramento imediato. É uma amálgama, às vezes um pouco concentrada demais, de uma cidade com este peso de humanidade às costas. Uma cidade de monumentos mas de lojas de tudo e nada encavalitadas, à procura de um espaço que nunca será delas. Londres de orientais e muçulmanos mais do que de ingleses, Londres de turistas (espanhóis e brasileiros, tantos!). De lojas de luxo e de galinheiros iguais onde se compra tudo que o desespero ou a necessidade gritarem.
Londres tem o que de melhor se pede numa cidade, bem como partes do pior. Londres é uma cidade moderna, um centro de mundos. E está na hora de deixarmos de duvidar: há muito poucos mundos bonitos por aí.
Esta viagem foi uma concentração de coincidências felizes que tinha tudo para dar certo. Dois tipos com vontade de ver tudo, fazer tudo - mesmo massagens orientais! - e gastar pouco. Fartos de estar parados, ou se quiserem mais à vontade com a nossa natureza nómada reprimida por séculos de civilização. E o facto de a viagem ter calhado (literalmente) no Outono, já a entrar no período natalício foi uma dessas coincidências felizes. Hyde Park de folhas a cair de dia, Londres néonica de Natal, à noite. Quem quiser escolher melhor altura do ano, pode tentar. Eu pessoalmente não gosto de perder tempo.
A poesia do néon é pouco convencional. É estridente e espalhafatosa e cobre a cidade em polvorosa para chegar a todo o lado, com táxis e autocarros que resistem ao tempo para não deixar a cidade parar. O néon ajuda. Acorda, incentiva e grita que os dias podem acabar, e que a arte está nos museus mas foi resgatada das ruas e das pessoas.
Parem um pouco numa rua caótica qualquer, e observem. Mas todos temos um olhar carregado de algo que a princípio desconhecemos. Não se enganem. Passam pessoas nas ruas. Mas escolham um canto mais protegido do vento e da chuva, e reparem. Há olhares a passar. Rostos. Há sorrisos e dramas a correr tão rápido que, se não fosse o brilho do néon reflectido nas, talvez nos conseguissem escapar.
Quarta-feira, Novembro 18, 2009
Terça-feira, Novembro 17, 2009
London Diaries, Chapter I
Não me culpem por ter chegado a Londres de pé atrás. Alugar um quarto a um tipo qualquer que tínhamos contactado por telefone, por 20£ por noite podia ser no mínimo suspeito. E como continuo a ensinar-me a confiar menos nos outros e mais em mim, estava silenciosamente alerta enquanto esperávamos Niles, o "senhorio". Pelo caminho a pronúncia pouco britânica já nos tinha garantido cinco minutos de conversa de surdos com um funcionário do metro.
Há um tipo alto a aproximar-se, de mão estendida, e um sorriso enorme a condizer. Ao seu lado, um pintas que podia ter saído de um qualquer bairro lisboeta algumas décadas atrás: cabelo platinado, ouro, camisa às flores - o set completo. Despede-se à pressa, atrapalhado e desaparece, deixando Niles entregue àquela que era aparentemente a sua actividade favorita: falar como um desalmado. Sobre a alegada falta de chuva em Londres, sobre os cuidados a ter para sobreviver à cidade, entrecortadas por dezenas de desculpas pela casa ser muito pouco parecida com o palácio de Buckingham. Aqui fica a descrição de Niles completa: grande, cabelo grisalho comprido atado num rabo de cavalo apressado e uns olhos cinzento-azuis abertos, enormes, mesmo abertos, como se tivessem que ver o mundo tudo antes que alguma coisa se passasse fora do seu alcance. Niles não era gago, mas quando não sabia o que dizer a seguir, repetia maquinalmente a última sílaba até se lembrar do que vinha seguir, ou de o inventar. Mais tarde íamos discutir que parte de Niles ser assim se devia à loucura ou aos copos que já devia ter bebido àquela hora. Eu encontrava-me firmemente do lado da loucura. Um louco gigante que nos alugou um quarto pelo preço da chuva - chuva essa que fez questão de cair abundantemente nos dias que se seguiriam como que para sublinhar a falta de senso de Niles quando nos dizia que em Londres praticamente nunca chovia. Notória quando nos explicava três vezes como funcionava a máquina de lavar roupa ou nos mostrava que, na opinião dele, a roupa saía da máquina tão pouco encharcada que às vezes a vestia imediatamente. Tinha também explicações sobre tudo, desde os computadores das bibliotecas públicas britânicas até aos tratados medievais assinados entre Portugal e Inglaterra. Niles tinha ainda duas toalhas de banho para nós. Devia ter por volta de 40 anos. Essa foi a primeira e última vez em que vi Niles.
Como deve ter ficado claro, fomos para Londres como turistas e acabamos por aterrar directamente num sketch real de uma britcom a valer. Londres dos londrinos, britânica de gema. A Londres dos turistas ficaria para o resto da semana.
Nota: A noite incluiu ainda um jantar num pub irlandês, brasileiras embriagadas, música ao vivo e a primeira viagem num double decker bus de borla.
[Sim, "There is a light that never goes out" fazia obviamente parte da banda sonora para toda a semana.]
